quarta-feira, 30 de maio de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

PARA OS GAROTINHOS E GAROTINHAS DO 1º ANO

Figuras de Linguagem
sobre Gramática por Algo Sobre
conteudo@algosobre.com.br
Figuras sonoras
Aliteração
Repetição de sons consonantais (consoantes).
Cruz e Souza é o melhor exemplo deste recurso. Uma das características marcantes do Simbolismo, assim como a sinestesia.
Ex: "(...) Vozes veladas, veludosas vozes, / Volúpias dos violões, vozes veladas / Vagam nos velhos vórtices velozes / Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas." (fragmento de Violões que choram. Cruz e Souza)
Assonância
Repetição dos mesmos sons vocálicos.
Ex: (A, O) - "Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral." (Caetano Veloso)
(E, O) - "O que o vago e incóngnito desejo de ser eu mesmo de meu ser me deu." (Fernando Pessoa)
Paranomásia
É o emprego de palavras parônimas (sons parecidos).
Ex: "Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias" (Padre Antonio Vieira)
Onomatopeia
Criação de uma palavra para imitar um som
Ex: A língua do nhem "Havia uma velhinha / Que andava aborrecida / Pois dava a sua vida / Para falar com alguém. / E estava sempre em casa / A boa velhinha, / Resmungando sozinha: / Nhem-nhem-nhem-nhem-nhem..." (Cecília Meireles)
Figuras de criação ou ( figuras de sintaxe )
A gramática normativa, partindo de aspectos lógicos e gerais observados na língua culta, aponta princípios que presidem às relações de dependência ou interdependência e de ordem das palavras na frase. Ensina-nos, entretanto, que aqueles aspectos lógicos e gerais não são exclusivos; ocasionalmente, outros fatores podem influir e, em função deles, a concordância, a regência ou a colocação (planos em que se faz o estudo da estrutura da frase) apresentam-se, às vezes, alteradas. Tais alterações denominam-se figuras de construção também chamadas de figuras sintáticas
Também é considerada como figura de construção a "Inversão", aonde ocorre a mudança da ordem direta dos termos na frase (sujeito + predicado + complementos).
Exs.:"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas De um povo heroico o brado retumbante" (Hino Nacional Brasileiro) (ordem direta: As margens do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.)
Elipse
Omissão de um termo ou expressão facilmente subentendida. Casos mais comuns:
a) pronome sujeito, gerando sujeito oculto ou implícito: iremos depois, compraríeis a casa?
b) substantivo - a catedral, no lugar de a igreja catedral; Maracanã, no ligar de o estádio Maracanã
c) preposição - estar bêbado, a camisa rota, as calças rasgadas, no lugar de: estar bêbado, com a camisa rota, com as calças rasgadas.
d) conjunção - espero você me entenda, no lugar de: espero que você me entenda.
e) verbo - queria mais ao filho que à filha, no lugar de: queria mais o filho que queria à filha. Em especial o verbo dizer em diálogos - E o rapaz: - Não sei de nada !, em vez de E o rapaz disse:
Zeugma
Omissão (elipse) de um termo que já apareceu antes. Se for verbo, pode necessitar adaptações de número e pessoa verbais. Utilizada, sobretudo, nas orações comparativas.
Ex: Alguns estudam, outros não, por: alguns estudam, outros não estudam. "O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano." (Chico Buarque) - omissão de era
Hipérbato
Alteração ou inversão da ordem direta dos termos na oração, ou das orações no período. São determinadas por ênfase e podem até gerar anacolutos.
Ex: Morreu o presidente, por: O presidente morreu.
Obs1.: Também denominada de antecipação.
Obs2.: Se a inversão for violenta, comprometendo o sentido drasticamente, alguns autores denominam-na sínquise
Obs3.: Alguns autores considera anástrofe um tipo de hipérbato
Anástrofe
Anteposição, em expressões nominais, do termo regido de preposição ao termo regente.
Ex: "Da morte o manto lutuoso vos cobre a todos.", por: O manto lutuoso da morte vos cobre a todos.
Obs.: alguns autores consideram um tipo de hipérbato
Pleonasmo
Repetição de um termo já expresso, com objetivo de enfatizar a ideia.
Ex: Vi com meus próprios olhos. "E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento." (Vinicius de Moraes), Ao pobre não lhe devo (OI pleonástico)
Obs.: pleonasmo vicioso ou grosseiro - decorre da ignorância, perdendo o caráter enfático (hemorragia de sangue, descer para baixo)
Assíndeto
Ausência de conectivos de ligação, assim atribui maior rapidez ao texto. Ocorre muito nas orações coordenadas.
Ex: "Não sopra o vento; não gemem as vagas; não murmuram os rios."
Polissíndeto
repetição de conectivos na ligação entre elementos da frase ou do período.
Ex: O menino resmunga, e chora, e esperneia, e grita, e maltrata. "E sob as ondas ritmadas / e sob as nuvens e os ventos / e sob as pontes e sob o sarcasmo / e sob a gosma e o vômito (...)" (Carlos Drummond de Andrade)
Anacoluto
Termo solto na frase, quebrando a estruturação lógica. Normalmente, inicia-se uma determinada construção sintática e depois se opta por outra.
Ex: Eu, parece-me que vou desmaiar. / Minha vida, tudo não passa de alguns anos sem importância (sujeito sem predicado) / Quem ama o feio, bonito lhe parece (alteraram-se as relações entre termos da oração)
Anáfora
Repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.
Ex: "Olha a voz que me resta / Olha a veia que salta / Olha a gota que falta / Pro desfecho que falta / Por favor." (Chico Buarque)
Obs.: repetição em final de versos ou frases é epístrofe; repetição no início e no fim será símploce. Classificações propostas por Rocha Lima.
Silepse
É a concordância com a ideia, e não com a palavra escrita. Existem três tipos:
a) de gênero (masc x fem): São Paulo continua poluída (= a cidade de São Paulo). V. Sª é lisonjeiro
b) de número (sing x pl): Os Sertões contra a Guerra de Canudos (= o livro de Euclides da Cunha). O casal não veio, estavam ocupados.
c) de pessoa: Os brasileiros somos otimistas (3ª pess - os brasileiros, mas quem fala ou escreve também participa do processo verbal)
Antecipação
Antecipação de termo ou expressão, como recurso enfático. Pode gerar anacoluto.
Ex.: Joana creio que veio aqui hoje.
O tempo parece que vai piorar
Obs.: Celso Cunha denomina-a prolepse.
Figuras de palavras ou tropos ou Alterações Semânticas
Metáfora
Emprego de palavras fora do seu sentido normal, por analogia. É um tipo de comparação implícita, sem termo comparativo.
Ex: A Amazônia é o pulmão do mundo. Encontrei a chave do problema. / "Veja bem, nosso caso / É uma porta entreaberta." (Luís Gonzaga Junior)
Obs1.: Alguns autores define como modalidades de metáfora: personificação (animismo), hipérbole, símbolo e sinestesia. ? Personificação - atribuição de ações, qualidades e sentimentos humanos a seres inanimados. (A lua sorri aos enamorados) ? Símbolo - nome de um ser ou coisa concreta assumindo valor convencional, abstrato. (balança = justiça, D. Quixote = idealismo, cão = fidelidade, além do simbolismo universal das cores)
Obs2.: esta figura foi muito utilizada pelos simbolistas
Catacrese
Uso impróprio de uma palavra ou expressão, por esquecimento ou na ausência de termo específico.
Ex.: Espalhar dinheiro (espalhar = separar palha) / "Distrai-se um deles a enterrar o dedo no tornozelo inchado." - O verbo enterrar era usado primitivamente para significar apenas colocar na terra.
Obs1.: Modernamente, casos como pé de meia e boca de forno são considerados metáforas viciadas. Perderam valor estilístico e se formaram graças à semelhança de forma existente entre seres.
Obs2.: Para Rocha Lima, é um tipo de metáfora
Metonímia
Substituição de um nome por outro em virtude de haver entre eles associação de significado.
Ex: Ler Jorge Amado (autor pela obra - livro) / Ir ao barbeiro (o possuidor pelo possuído, ou vice-versa - barbearia) / Bebi dois copos de leite (continente pelo conteúdo - leite) / Ser o Cristo da turma. (indivíduo pala classe - culpado) / Completou dez primaveras (parte pelo todo - anos) / O brasileiro é malandro (sing. pelo plural - brasileiros) / Brilham os cristais (matéria pela obra - copos).
Antonomásia, perífrase
substituição de um nome de pessoa ou lugar por outro ou por uma expressão que facilmente o identifique. Fusão entre nome e seu aposto.
Ex: O mestre = Jesus Cristo, A cidade luz = Paris, O rei das selvas = o leão, Escritor Maldito = Lima Barreto
Obs.: Também considera como uma variação da metonímia
Sinestesia
Interpenetração sensorial, fundindo-se dois sentidos ou mais (olfato, visão, audição, gustação e tato).
Ex.: "Mais claro e fino do que as finas pratas / O som da tua voz deliciava ... / Na dolência velada das sonatas / Como um perfume a tudo perfumava. / Era um som feito luz, eram volatas / Em lânguida espiral que iluminava / Brancas sonoridades de cascatas ... / Tanta harmonia melancolizava." (Cruz e Souza)
Obs.: Para alguns autores, representa uma modalidade de metáfora
Anadiplose
É a repetição de palavra ou expressão de fim de um membro de frase no começo de outro membro de frase.
Ex: "Todo pranto é um comentário. Um comentário que amargamente condena os motivos dados."
Figuras de pensamento
Antítese
Aproximação de termos ou frases que se opõem pelo sentido.
Ex: "Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios" (Vinicius de Moraes)
Obs.: Paradoxo - ideias contraditórias num só pensamento, proposição de Rocha Lima ("dor que desatina sem doer" Camões)
Eufemismo
Consiste em "suavizar" alguma ideia desagradável
Ex: Ele enriqueceu por meios ilícitos. (roubou), Você não foi feliz nos exames. (foi reprovado)
Obs.: a autora Rocha Lima propõe uma variação chamada litote - afirma-se algo pela negação do contrário. (Ele não vê, em lugar de Ele é cego; Não sou moço, em vez de Sou velho). Para Bechara, alteração semântica.
Hipérbole
Exagero de uma ideia com finalidade expressiva
Ex: Estou morrendo de sede (com muita sede), Ela é louca pelos filhos (gosta muito dos filhos)
Obs.: Para alguns, é uma das modalidades de metáfora.
Ironia
Utilização de termo com sentido oposto ao original, obtendo-se, assim, valor irônico.
Obs.: Para alguns designado como antífrase
Ex: O ministro foi sutil como uma jamanta.
Gradação
Apresentação de ideias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax)
Ex: "Nada fazes, nada tramas, nada pensas que eu não saiba, que eu não veja, que eu não conheça perfeitamente."
Prosopopeia, personificação, animismoÉ a atribuição de qualidades e sentimentos humanos a seres irracionais e inanimados.
Ex: "A lua, (...) Pedia a cada estrela fria / Um brilho de aluguel ..." (Jõao Bosco / Aldir Blanc)
Obs.: Para alguns, é uma modalidade de metáfora.

NÃO DEIXEM DE CONFERIR UM TRABALHO BELÍSSIMO: ANÁLISES FEITAS PELOS ALUNOS DE JUNDIAÍ SOBRE FIGURAS DE LINGUAGEM, ORIENTADOS PELA PROFESSORA SÍLVIA ZAMPAR...

BEIJITOS DA TIA CUNEGUNDES

sábado, 24 de março de 2012

A CARTA NO VESTIBULAR

A carta é uma modalidade redacional livre, pois nela podem aparecer a narração, a descrição, a reflexão ou o parecer dissertativo. O que determina a abordagem, a linguagem e os aspectos formais de uma carta é o fim a que ela se destina: um amigo, um negócio, um interesse pessoal, um ente amado, um familiar, uma seção de jornal ou revista etc.
A estética da carta varia consoante a finalidade. Se o destinatário é um órgão do governo, a carta deve observar procedimentos formais como a disposição da data, do vocativo (nome, cargo ou título do destinatário), do remetente e a assinatura.
No caso das correspondências comercial e oficial - textos jurídicos, comunicados, ofícios, memorandos emitidos por órgãos públicos -, a linguagem é muitas vezes feita de jargões e expressões de uso comum ao contexto que lhes é próprio.
Quando um exame vestibular sugere uma carta como proposta, o aspecto formal, bem como a abertura e o fechamento do texto segundo o jargão, são irrelevantes, pois o que prevalece é o conteúdo e a linguagem (orientação da maioria das universidades, especialmente as públicas).
CARTA:
Ética (na política, no esporte, na justiça...)

João Pessoa, 25 de agosto de 2002
Editor de notícias do jornal O Norte
Prezado senhor editor,
Devido à competência profissional que lhe é creditada e à grande aceitação do seu veículo comunicativo pela população, venho solicitar desse a publicação de uma matéria com fins esclarecedores sobre ética.
É sabido de todos que as eleições se aproximam, portanto se faz necessário levar à sociedade um documento da natureza solicitada para que os valores morais, o decoro e o compromisso com a honestidade sejam cobrados de maneira mais veemente.
Visando a uma maior compreensão, a abordagem poderia abarcar outros setores além da política, como a ética nos esportes, na justiça, no trabalho etc., constituindo-se, pois, numa matéria multidisciplinar.
Verificar-se-á, senhor editor, o pioneirismo deste estudo, caso seja levado em consideração o cunho popular, e a grande atenção que será dada a ele pela população. Ciente da compreensão e da aceitação do conteúdo aqui apresentado, agradeço antecipadamente.

SAUDADES DE MEU IRMÃO ERALDO CUNEGUNDES

domingo, 26 de fevereiro de 2012

PARA MEUS MENINOS E MENINAS DO NONO ANO

O PRIMEIRO BEIJO

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! Como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes, mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que, mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede, mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele: a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.

(In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

OLHEM O TEXTO QUE PROMETI...

                                    A festinha

                O menino era um capetinha. Desbocado, safadinho, aquela carinha típica de menino matreiro. Vivia sendo expulso das festinhas de aniversário em que comparecia, matando a mãe de desgosto.
                Na última em que comparecera, tinha armado uma brincadeira tão safada no banheiro, que em meia hora a mãe do aniversariante teve de devolvê-lo para casa. E o que falava de palavrão não era brincadeira.
               Passaram meses sem que fosse convidado para festa  alguma no bairro.
              Um dia a mãe dele recebe um telefonema de uma vizinha convidando o garotinho pro aniversário da filha. No fundo, a mãezinha ficou muito feliz, afinal, o menininho dela seria de novo aceito no seu círculo.
              Na hora da festa, arrumou o filho todo bonitinho, penteou o cabelinho do menino e deu muitos conselhos pra ele, “meu filhinho, comporte-se direitinho, não faça a mamãe passar vergonha, não fale palavra feia, não agarre as menininhas, respeite os mais velhos,” essas coisas. Fez o embrulho do presentinho, deu um beijo na testa do menino e disse:
             _ Vai com Deus, meu anjo. Faz tudo direitinho como mamãe falou, viu?
            E o menino foi.
           Dez minutos depois, olha o menino de volta, todo sem graça. A mãe abriu a porta e deu de cara com o menininho ali, com aquele sorrisinho todo amarelinho nos lábios, ah, ela nem conversou:
          _ Capetinha! A gente não pode confiar em você, não é? Foi agarrando o menino pela orelha e falando todas as coisas que mãe fala nestas horas e jogou o menino no banheiro.
         _ Vai ficar preso aí até seu pai chegar pra conversar com você. Eu já não tenho mais paciência. E fechou a porta do banheiro.
         O menino chorou, berrou, soluçou, mas ela o deixou lá.
         Naquele dia, o pai chegou tardíssimo. Já encontrou a mulher resmungando:
         _ O capeta do seu filho só me dá desgosto. Tá preso lá no banheiro esperando você chegar para conversar com ele. E contou tudo o que tinha acontecido. O pai foi lá, abriu a porta, o menino estava deitadinho no chão do banheiro, dormindo, dando aqueles soluços profundos que menino dá quando  adormece depois de um choro muito longo. O pai acordou o filho, sentou-o no colo muito severo e perguntou com voz grave:
       _ Que foi que houve, rapaz?
       E o menino com a vozinha lá no fundo:
       _ A festa foi transferida para amanhã.
PINTO, Ziraldo Alves. In: As anedotas do Pasquim. Rio de Janeiro: Codecri, 1974. p. 10.
 BEIJOS DA TIA CUNEGUNDES